A g n u s D e i

INSTRUMENTUM LABORIS
Sínodo dos Bispos
Vaticano - 1997

III
ENCONTRO COM JESUS CRISTO VIVO, CAMINHO PARA A COMUNHÃO

Capítulo I: A comunhão em Jesus Cristo

    Jesus Cristo Evangelizador

    29. A origem e o fim da comunhão na Igreja é Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, que redimiu do pecado o gênero humano com a sua paixão, morte e ressurreição, e que, em sua Igreja, animada pelo Espírito Santo, deseja se encontrar com cada homem e cada mulher, para lhe oferecer a salvação. Os Evangelhos são ricos de relatos acerca de muitas pessoas que, ao encontrarem Jesus durante a sua vida terrena, se transformam em discípulos seus: Pedro e os outros apóstolos (cf. Mt 4,18-22), Maria Madalena (cf. Lc 8,1-3), Zaqueu (cf. Lc 19.1-10), os cegos de Jericó (cf. Mt 20,29-34), a mulher samaritana (cf. Jo 4,4-42), Lázaro e suas irmãs (cf. Jo 11,1-44) e tantos outros. Mesmo depois da ressurreição, Jesus apareceu a seus seguidores, como àqueles abatidos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) para lhes explicar o sentido do seu sofrimento e da sua morte à luz das Escrituras e para se fazer reconhecer no preciso momento em que partiam o pão. Em todas essas ocasiões, com a sua presença, suas palavras e seus gestos, Jesus anuncia a Boa Nova da salvação e, portanto, pode-se dizer que Ele é o evangelizador por excelência, como se exprimia o Papa Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi: "o próprio Jesus, Evangelho de Deus, foi o primeiro e o maior dos evangelizadores".(47) Do mandato de Jesus Cristo a seus apóstolos nasce toda a missão evangelizadora da Igreja.

    Ao anunciar a Boa Nova, Jesus Cristo chama à conversão, para convidar a viver em comunhão com Ele e com os seus discípulos. O fruto que se espera desta convivência na caridade é a solidariedade fraterna. O conceito de comunhão encontra-se, portanto, "no coração da autoconsciência da Igreja, enquanto Mistério da união pessoal de cada homem com a Trindade divina e com os outros homens, iniciada na fé e orientada para a plenitude escatológica na Igreja celeste, embora sendo já desde o início uma realidade na Igreja sobre a terra".(48) As respostas aos Lineamenta confirmam a necessidade de anunciar Jesus Cristo vivo, seguindo o seu exemplo de Evangelizador perfeito, para fazer crescer a comunhão com Deus e com o próximo, como uma realidade já presente no hoje da vida da Igreja e como um sinal escatológico da Vida eterna.

    A evangelização para a comunhão na América

    30. A evangelização do Novo Mundo, iniciada há mais de 500 anos, conduziu muitos homens e mulheres ao encontro com Jesus Cristo e floresceu no testemunho de tantos santos, que permeiam a história da Igreja na América. Os santos na terra americana tornam presente o mistério de Cristo e o mostram como um ideal próximo e possível aos homens e mulheres do Continente. A vida deles não só é um testemunho pessoal de Jesus Cristo mas também uma expressão da comunhão em seu Corpo Místico que é a Igreja. Esta dupla dimensão cristológica e eclesiológica da santidade contribuiu, e continua contribuindo no presente, para que muitos possam se aproximar de Jesus Cristo e entrar em comunhão com Ele na Igreja. A maioria das respostas confirmam a importância, nesse sentido, da devoção aos santos na piedade dos povos da América.

    A nova evangelização, que tem sido uma preocupação da Igreja Católica desde o Concílio Ecumênico Vaticano II e continua a sê-lo, atualmente de maneira toda particular, ao se aproximar a celebração jubilar do ano 2000, é vista, em muitas respostas aos Lineamenta, como uma tarefa cujo principal objetivo é orientar a pessoa a uma experiência profunda de Deus através do mistério de Cristo. Para isso, indica-se a necessidade de entrar em diálogo com as pessoas individuais e com as culturas nas quais vivem os indivíduos. A Assembléia Especial para a América oferece aos Pastores uma ocasião especial para constatar como se vive o mistério da comunhão nas Igrejas particulares, entre elas dentro de um mesmo país, e entre elas dentro de todo o Continente americano. Igualmente, será possível verificar em que modo a Igreja na América pode ser um sinal e instrumento da comunhão em todo o Continente.

Capítulo II: A eclesiologia da comunhão no Concílio Ecumênico Vaticano II

    Os fundamentos eclesiológicos: fé, sacramentos e missão

    31. A eclesiologia da comunhão é um conceito central e fundamental dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II,(49) fato que se pode facilmente constatar lendo as quatro constituições conciliares: sobre a Igreja (Lumen gentium), sobre a divina Revelação (Dei Verbum), sobre a Sagrada Liturgia (Sacrosanctum concilium) e sobre a Igreja no mundo de hoje (Gaudium et spes). A constituição dogmática Dei Verbum apresenta a revelação como a obra salvífica de Jesus, que convida através das palavras e dos gestos a se abrir à comunhão com Deus e com os outros homens.(50) A constituição dogmática Lumen gentium descreve a Igreja como sacramento universal de salvação, ou seja, como sinal e instrumento de comunhão com Deus e entre os homens.(51) A constituição Sacrosanctum concilium ensina como, durante sua peregrinação terrena rumo à plenitude do Reino, a Igreja encontra a fonte e o cume da sua vida eclesial na celebração da Eucaristia, memorial do mistério pascal de Jesus Cristo.(52) Finalmente, a constituição Gaudium et spes descreve a contribuição específica que a Igreja pode oferecer à sociedade em favor da unidade do gênero humano, dando testemunho da comunhão em Cristo, que é a razão última da unidade na Igreja.(53)

    32. Falando do papel especial que têm os Bispos na missão evangelizadora da Igreja e na construção da unidade, o Concílio Ecumênico Vaticano II aponta os elementos essenciais da comunhão eclesial nos seguintes termos: "Jesus Cristo quer que seu povo cresça, sob a ação do Espírito Santo, através da fiel pregação do Evangelho e da administração dos sacramentos, e mediante um governo amoroso, realizado pelos Apóstolos e seus sucessores - os Bispos - e o sucessor de Pedro como chefe. E Ele próprio, através de tudo isso e por obra do mesmo Espírito, realiza a comunhão na unidade: na confissão de uma única fé, na comum celebração do culto divino e na fraterna concórdia da família de Deus".(54) Portanto, os traços essenciais da comunhão na Igreja são: a confissão de uma mesma fé, a celebração do culto e a concórdia fraterna na vida da comunidade eclesial, tanto ad intra, isto é em sua unidade interna, como ad extra, no esforço missionário de evangelizar o mundo.

    33. O questionário aos Lineamenta não incluía uma pergunta sobre a visão da Igreja como mistério de comunhão; perguntava-se, no entanto, sobre a situação concreta da Igreja na América: quais são os fatores que produzem divisões no âmbito eclesial (pergunta n· 4) e como foi acolhida a eclesiologia da comunhão proposta pelo Concílio Vaticano II (pergunta n· 5). Por este motivo, as respostas têm um tom mais informativo, que descreve a situação atual da Igreja na América. No entanto, é claro que as respostas pressupõem uma eclesiologia de comunhão ao descrever os diversos aspectos da vida eclesial (catequese, liturgia, testemunho cristão, etc.) e que tal concepção eclesiológica se baseia na fé, nos sacramentos e em um espírito comunitário, que anima a vida interna e o impulso missionário da Igreja. Levando em conta este postulado fundamental, emerge também claramente das respostas que a comunhão requer a ativa participação de todos os fiéis, segundo a variedade dos próprios carismas e ministérios. Neste sentido, assinala-se que a participação em vista da comunhão é um dos mais preciosos frutos da recepção do Concílio Ecumênico Vaticano II na América.

    A comunhão da Igreja Católica na América

    34. A América é um continente no qual a maioria dos seus habitantes é de religião católica.(55) No entanto, a comunhão na mesma Igreja Católica, em todo o Continente, está marcada por uma série de fatores geográficos, históricos e culturais que a condicionam e a qualificam. Assim, muitas respostas aos Lineamenta indicam diferenças substanciais entre as realidades eclesiais da América Latina e do resto do Continente, mas, por outra parte, advertem que não seria lógico caracterizar simplesmente as grandes áreas geográficas em base às diferenças, sem levar em consideração certos matizes que podem resultar decisivos para a compreensão da realidade global. Por exemplo, a presença de imigrantes latino-americanos em algumas áreas do Norte cria uma certa semelhança entre as comunidades eclesiais desta região e as do Centro, do Caribe e do Sul do Continente. Além disso, em cada país e em cada igreja local existe uma variedade de matizes étnicos, culturais, históricos e sociais que, longe de impedir a unidade na fé, nos sacramentos e na vida em comum, enriquece realmente a comunhão, tornando-a mais dinâmica e vivaz.

    35. Muitas respostas aos Lineamenta indicam que a vida das Igrejas particulares, em cada um dos países do Continente, é influenciada não somente pela diversidade de origens étnicas dos membros das mesmas comunidades, mas também pelas específicas circunstâncias históricas, culturais e econômicas. Na América Latina a comunhão eclesial foi influenciada, muitas vezes, por um contexto social muito complexo, que deu como resultado o nascimento das comunidades eclesiais de base e da teologia da libertação.(56) No restante da América, em câmbio, a experiência da comunhão eclesial, às vezes, foi influenciada pela tradição civil da democracia, provocando em alguns fiéis que, com sã intenção desejavam participar da vida da Igreja, a tentação de construir a comunidade eclesial com os mesmos critérios da comunidade civil (direito à dissidência, a vontade da maioria como elemento decisivo nas questões governativas e sociais, etc.). Em resposta ao questionário dos Lineamenta, indica-se criticamente que tal concepção não leva na devida consideração o fato de que a Igreja, enquanto mistério de comunhão, implica fundamentalmente a dimensão vertical (comunhão com Deus) além da dimensão horizontal (comunhão entre os homens). É precisamente a primeira dimensão que distingue a Igreja de qualquer outra instituição humana e que torna possível a dimensão da comunhão entre as pessoas, em um sentido autenticamente cristão. Com efeito, a Igreja é um povo cuja unidade se fundamenta na unidade do mistério trinitário: o mesmo Espírito, que abraça a única e indivisa Trindade, uniu indissoluvelmente a carne humana ao Filho de Deus e é o inesgotável manancial do qual brota, sem cessar, a comunhão na Igreja e a comunhão da Igreja.(57)

    36. A Assembléia Especial para a América do Sínodo dos Bispos oferece uma oportunidade de incalculável valor, pois nela se encontram os Pastores do Povo de Deus provenientes das Igrejas que pertencem a duas partes do Continente certamente significativas: o norte e o sul. Com efeito, nestas duas grandes áreas - não somente geográficas mas também socioculturais - manifesta-se a grande divisão que caracteriza a situação do mundo no final do segundo milênio, ou seja, a tensão entre os hemisférios norte e sul. À luz de uma eclesiologia de comunhão, aparece claro que a Assembléia sinodal pode ser um sinal eficaz e um instrumento da união de todos os membros do Povo de Deus e das Igrejas locais do Continente, em comunhão com o Pastor Universal e, ao mesmo tempo, um válido testemunho de unidade e de solidariedade para a sociedade civil na América e para o mundo inteiro.

    A influência e a recepção do Concílio Vaticano II

    37. As respostas aos Lineamenta são unânimes em reconhecer que o Concílio Ecumênico Vaticano II marcou profundamente não somente a vida litúrgica e comunitária das Igrejas particulares, mas também o modo de pensar dos católicos acerca da Igreja e sobre o papel que eles mesmos nela desempenham. Todos os membros do Povo de Deus foram influenciados positivamente pelo Concílio:

    • Bispos: uma das realidades emergentes de maior importância é a instituição das Conferências Episcopais, que constituem uma ocasião privilegiada para viver ricas experiências de colegialidade entre os Pastores de um mesmo país. Também a comunhão colegial entre os Bispos de dioceses sufragâneas e o respectivo Arcebispo Metropolitano ajuda eficazmente uma adequada coordenação e uma uniformidade dos critérios pastorais, que é um sinal positivo de unidade eclesial.

    • Sacerdotes e diáconos: em diversas dioceses constatam-se positivas iniciativas de comunhão dos sacerdotes e diáconos entre si e com o Bispo, para servir melhor o Povo de Deus a eles confiado (Conselhos Pastorais diocesanos, Decanatos pastorais, reuniões de clero, etc.).

    • Leigos: atualmente, muitos leigos concebem a comunhão eclesial como um grande dom do Espírito Santo, que eles são chamados a acolher com gratidão e a viver com profundo sentido de responsabilidade.(58) Muitas são as maneiras indicadas pelas respostas aos Lineamenta, através das quais se realiza a comunhão dos leigos nas Igrejas locais na América: participação em diversas comissões e organismos em nível diocesano e paroquial, colaboração no planejamento da liturgia, no ensino do catecismo, nas atividades missionárias, na elaboração de programas paroquiais e diocesanos de pastoral, etc.

    • A vida consagrada: através das respostas aos Lineamenta percebe-se uma ativa e crescente participação dos homens e mulheres consagrados na vida das Igrejas particulares, dando um testemunho de comunhão e de serviço.(59) Como fruto da IX Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema da vida consagrada, em muitas partes do continente estão sendo postas em prática novas estruturas de diálogo e de colaboração para incentivar a cooperação entre os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica entre si e com o Bispo diocesano.

    Além das diversas vocações ao interno do Povo de Deus, mencionadas precedentemente, nas respostas aos Lineamenta realça-se a influência positiva do Concílio Ecumênico Vaticano II e do Magistério pós-conciliar em outros grupos, que desempenham um papel ativo na construção da comunhão eclesial:

    1. as mulheres, cuja função é cada vez mais importante na vida da Igreja, cobrindo necessidades pastorais;(60)

    2. os jovens, cuja atenção pastoral assume o caráter de uma verdadeira prioridade, que pode ser o objeto de colaboração entre os Pastores de todo o Continente;

    3. a família como igreja doméstica e primeira escola de fé e de comunhão cristã.

Capítulo III: Dificuldades para a comunhão inter-eclesial

    Fatores de divisão

    38. Antes de tudo, é necessário indicar que muitas respostas aos Lineamenta assinalam a existência de um sentido de unidade e de colaboração entre Bispos, sacerdotes, consagrados e consagrados, movimentos eclesiais e leigos, que prevalece como um traço característico das Igrejas locais e que é mais forte do que os elementos que causam tensões.(61) Não obstante, isto não significa que não existam fatores de divisão, por exemplo:

    • uma falta de conversão, que se manifesta em atitudes como: autoritarismo, clericalismo, anticlericalismo, recusa da autoridade na Igreja, individualismo;

    • uma falta de diálogo como conseqüência de uma incapacidade, por parte de certos membros do Povo de Deus, de trabalhar em equipe;

    • uma escassez de planos pastorais de conjunto, que se traduz em uma falta de uniformidade nos critérios a serem seguidos na ação evangelizadora;

    • a escassa participação efetiva dos leigos em alguns âmbitos da vida eclesial;

    • a existência de alguns modos de conceber a vida da Igreja, que não aceitam plenamente a eclesiologia de comunhão do Concílio Vaticano II;

    • a falta de formação em uma teologia da comunhão e da solidariedade pastoral entre os diversos membros do Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, consagrados e consagradas, movimentos eclesiais e leigos;

    • insuficiente colaboração por parte de certos movimentos eclesiais, para trabalhar em comunhão com as estruturas pastorais diocesanas;

    • diversidade de posições no aspecto econômico, tanto no que se refere aos emolumentos que se cobram por ocasião da administração dos sacramentos, como no que diz respeito às diferenças criadas por uma desigualdade de critérios sobre a manutenção do clero;

    • polarização ideológica de alguns membros da Igreja, com freqüência etiquetada em termos de tradicionalismo ou progressismo, que encontra muitos pontos de conflito em temas como a justiça social, a teologia moral, a liturgia, etc;

    • atitudes contestadoras com relação a certos temas sobre os quais o Magistério se definiu expressamente e, no entanto, alguns membros do Povo de Deus insistem sobre as próprias idéias, criando forte contraste: a ordenação sacerdotal da mulher, o celibato sacerdotal, a indissolubilidade do vínculo matrimonial, etc.

    Finalmente, percebe-se nas respostas que, por detrás das tensões anteriormente mencionadas e na base das mesmas, existem implícitas concepções do mistério de Jesus Cristo, que se traduzem em outros tantos enfoques do mistério da Igreja e da programação da ação pastoral. Com efeito, dada a íntima relação que existe entre o mistério de Cristo e a natureza da Igreja,(62) não é difícil compreender que um desequilíbrio na cristologia facilmente se traduz em uma eclesiologia incompleta, a qual, por sua vez, se reflete em uma práxis pastoral, cujos critérios de fundo tendem a se identificar não tanto com o Evangelho e sim com correntes ideológicas alheias ao mesmo. Daí a importância de um anúncio completo do mistério de Cristo, baseado nos critérios objetivos da revelação e da fidelidade ao Magistério da Igreja

    Passos para superar as divisões

    39. As respostas aos Lineamenta indicam a necessidade de se promover estruturas eclesiais e atitudes pessoais que facilitem o diálogo, para poder superar os obstáculos que impedem a comunhão na Igreja. Muitas são as sugestões de se fomentar a programação de uma pastoral de conjunto, através de planos nacionais, diocesanos e paroquiais. Para isso, indica-se a conveniência de se criar uma mentalidade aberta para aceitar a colaboração de todos os membros do Povo de Deus, especialmente dos leigos que, com seus próprios carismas e ministérios, podem enriquecer o diálogo e a reflexão pastoral.

    Indica-se, com freqüência, que, na base das divisões dentro da Igreja, existe o problema da conduta pessoal dos membros envolvidos nestas tensões. Neste sentido, menciona-se o papel importante que certas atitudes podem desempenhar na construção da unidade, como, por exemplo: a oração pessoal e comunitária para pedir os dons do Espírito Santo, a disposição interior para uma conversão contínua orientada a uma busca da verdade e a uma vivência da caridade, a disponibilidade para participar de atividades comunitárias em todos os níveis, o respeito e a paciência para compreender as posições dos demais, a honestidade de expor claramente as próprias idéias e de aceitar as críticas que refletem outros pontos de vista, etc.

    40. Outra sugestão para superar as tensões em nível global em toda a Igreja na América, que se evidencia como opinião comum nas respostas ao questionário, consiste na promoção de maior contato, comunicação e colaboração entre as Igrejas particulares do Continente, que se encontram nas diversas regiões e países. Nesta linha de ação já se realizaram, por exemplo, diversos Encontros Internacionais de Bispos, dos quais participaram representantes das Conferências Episcopais da América Latina, do C.E.L.A.M. (Conselho Episcopal Latino-americano), da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos Estados Unidos da América e da Conferência Canadense de Bispos Católicos. Tais reuniões, como também as Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano, constituem ótimas ocasiões para se viver uma experiência de colegialidade episcopal. Estes eventos certamente contribuem para reforçar os laços de comunhão na Igreja que está na América. Outro exemplo que põe em evidência a comunhão intra-eclesial é o envio de sacerdotes de algumas dioceses a outras igrejas locais com carência de vocações como missionários, ou ainda para acompanhar pastoralmente os imigrantes (especialmente os latino-americanos nos Estados Unidos da América e no Canadá).

Capítulo 4: A Igreja Católica no contexto religioso da América

    Em geral

    41. As respostas ao questionário dos Lineamenta, relativas a este tema, distinguem três tipos de comunidades religiosas com as quais a Igreja Católica na América entra em contato: a) as comunidades cristãs com as quais se leva a cabo uma relação de colaboração ecumênica, a caminho de uma comunhão que se vai realizando lentamente; b) comunidades não cristãs com as quais é possível somente um diálogo inter-religioso e c) diversos grupos conhecidos genericamente como movimentos religiosos e "seitas".(63) Não é exagerado dizer que existe, com relação a este aspecto, uma significativa diferença entre os países nos quais tradicionalmente a maioria dos habitantes pertence à Igreja Católica e aqueles nos quais os católicos são uma minoria. As respostas dos países deste último grupo, como os Estados Unidos da América e o Canadá, caracterizam-se, em geral, por uma apresentação positiva dos contatos ecumênicos e inter-religiosos. Em contraste, as respostas do primeiro grupo, isto é, dos países de maioria católica, como os da América Latina, apresentam menos contatos ecumênicos e inter-religioso. A diferença entre ambas as realidades encontra uma explicação evidente na diversidade dos contextos históricos de cada uma das regiões, com relação à respectiva tradição religiosa. No entanto, tampouco aqui as diferenças devem ser exageradas, já que, por exemplo, a atividade dos movimentos religiosos e das seitas parece alcançar proporções alarmantes em todo o território americano, a ponto de muitos católicos deixarem a Igreja para passar às filas das referidas denominações religiosas e seitas, ou para seguir os passos da corrente sincretista chamada habitualmente New Age.

    Ecumenismo

    42. A realização de significativos esforços em favor do ecumenismo está ligada, em cada Igreja particular, à presença histórica de comunidades cristãs que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica, como, por exemplo os Ortodoxos, os Luteranos, os Reformados, os Metodistas e outras religiões semelhantes, que buscam ativamente superar as divisões. A regra geral é que naquelas regiões onde estas comunidades não são numericamente importantes, tampouco se mantêm ativos contatos ecumênicos com a Igreja Católica. Isto se verifica precisamente em muitas dioceses e Conferências Episcopais do Sul do Continente, embora isso não significa que ali não aconteçam iniciativas ecumênicas, inclusive com resultados positivos: participação em conselhos de igrejas em nível continental e nacional, diálogo teológico, colaboração no tema dos direitos humanos, oração em comum com os irmãos separados para pedir a unidade, cooperação no uso de alguns meios de comunicação e também em atividades caritativas. A estas iniciativas une-se a inclusão do tema do ecumenismo nos programas de formação nos seminários e centros catequéticos. Apesar destes resultados positivos, percebe-se a necessidade de fazer crescer a consciência ecumênica nos fiéis católicas, nas regiões onde a Igreja Católica é maioria. Por outra parte, menciona-se nas respostas que muitos cristãos não católicos, nestas regiões, pertencem a comunidades fundamentalistas e militantes, que são agressivas com respeito à Igreja Católica e parecem não ter interesse na unidade.

    43. Nos países onde os católicos são tradicionalmente uma minoria, observa-se uma atividade ecumênica mais intensa, tanto em nível diocesano como paroquial. A sensibilidade ecumênica é promovida a partir das universidades e faculdades católicas, como também a partir da catequese. Os membros do Povo de Deus nestas regiões da América, clero e leigos, participam freqüentemente de Conselhos de Igrejas e de organizações ecumênicas. A Igreja Católica "co-patrocina" diálogos bilaterais em nível nacional, regional e local. Observa-se que os contatos com as comunidades cristãs não católicas mais conservadores e fundamentalistas são mais fluidos quando se trata de colaborar no campo das atividades em favor da vida, do que quando se tenta um diálogo em nível teológico. Não obstante, nos últimos tempos, alguns temas relacionados com a moral sexual e com o papel da mulher têm sido fonte de conflitos entre a Igreja Católica e outras comunidades cristãs.

    Em geral, em todo o Continente, a atividade ecumênica mais universalmente praticada é a semana de oração pela unidade dos cristãos. Através destes encontros, cresce e amadurece o movimento ecumênico, cuja alma se nutre, antes de tudo, da oração e da conversão. Realizam-se também outras formas de colaboração social e caritativa, como também o diálogo teológico, mas sem obscurecer o aspecto fundamental da oração.(64)

    Diálogo inter-religioso

    44. No que diz respeito às relações com as religiões não cristãs, algumas das respostas provenientes do Sul do Continente mencionam as comunidades judaicas e, em menor proporção, a comunidade islâmica, como as mais relevantes nesta categoria, embora a presença de ambas não deixa de ser minoritária. Outras religiões, de origem asiática, como o Budismo ou o Hinduísmo, encontram-se difundidas menos ainda; no entanto, essas espiritualidades orientais exercem cada vez mais uma atração, mesmo em ambientes cristãos, nos quais se impõem como uma espécie de "moda cultural". Ao abordar este tema, algumas respostas aludem também à propensão de se valorizar certos elementos das religiões indígenas da América. Estas tendências deram origem à assim chamada teologia pluralista das religiões, que conecta as intuições filosóficas e religiosas da Ásia com as do mundo indígena americano.(65)

    As respostas que refletem o estado da situação no Norte do Continente indicam uma maior proporção de aderentes a religiões não cristãs, especialmente ao judaísmo e, em menor escala, ao islamismo. Nesta região, a Igreja Católica tem mantido vários contatos com estas comunidades e as Conferências Episcopais estabeleceram estruturas para promover encontros inter-religiosos. Igualmente, algumas dioceses mantêm excelente diálogo com hebreus e muçulmanos. Uma das maiores áreas de colaboração é o campo da educação universitária. No presente, percebe-se que a Igreja Católica e algumas comunidades hebraicas, quando aliadas em certos valores comuns, têm um considerável peso na sociedade, apesar de não serem numericamente maioritárias.

    Novos movimentos religiosos e seitas

    45. A situação relativa aos novos movimentos religiosos e às seitas é muito complexa e se apresenta com acentuadas variantes segundo os diversos contextos culturais.(66) Entre as características que mais se realçam merecem ser citados o proselitismo e o fanatismo religioso. Este problema foi abordado por muitas das respostas à pergunta n· 8 do questionário dos Lineamenta, nas quais se afirma que essas duas notas distintivas anteriormente mencionadas opõem-se a qualquer tipo de diálogo. Com efeito, com tais atitudes se tenta induzir as pessoas a mudar as próprias convicções religiosas através de certos meios, como, por exemplo:(67)

    • a crítica e a ridicularização injusta das igrejas com suas práticas religiosas; o emprego da violência, sobretudo compulsão moral e pressão psicológica, com o uso de certas técnicas publicitárias nos meios de comunicação social;

    • a manipulação indiscriminada do poder político e econômico como meio para ganhar novos membros para a própria seita ou movimento religioso;

    • o oferecimento explícito ou implícito de ajuda nos campos da educação, da saúde e da assistência material e financeira, como meios para obter adeptos;

    • as atitudes e práticas que exploram as necessidades do povo, a debilidade psicológica ou a carência de educação, especialmente nas situações de esgotamento ou de desespero, sem respeitar a liberdade e a dignidade humana.

    46. Existe um consenso geral em todo o Continente acerca do sério problema que representam os novos movimentos religiosos e as seitas, à raiz do proselitismo e do fanatismo que os caracterizam. O seu crescimento é tão grande que, na América Central, no Caribe e na América do Sul, fala-se de uma "invasão", aludindo, com essa expressão, ao fato que muitos destes grupos vêm principalmente dos Estados Unidos da América, com abundantes recursos econômicos para o desenvolvimento das próprias campanhas. Fala-se, além disso, da existência de um "plano coordenado", por parte das seitas, para alterar a atual identidade religiosa da América Latina que, como se diz na introdução do presente documento, é não somente essencialmente cristã, mas também católica. Em geral, os movimentos religiosos e as seitas pregam agressivamente contra a Igreja Católica. Além disso, orientam as suas campanhas de proselitismo aos marginalizados da sociedade, aos imigrantes, aos prisioneiros nas cadeias, aos enfermos nos hospitais e, em geral, a todos os que vivem nas zonas periféricas das grandes cidades, onde a presença da Igreja Católica, às vezes, não é consistente. Alguns propagadores destas seitas interpretam a Bíblia de uma maneira fundamentalista, dando respostas concisas a pessoas que se encontram em situações de grande incerteza, organizam grupos para o estudo da Bíblia e também pronunciam discursos nas praças e convidam a participar nos próprios lugares de culto. Com freqüência as seitas apelam para a emotividade e a sensibilidade superficial, para desenvolverem a sua ação de propaganda. Em muitos grupos coordenados por estes movimentos, reza-se pela cura dos enfermos e se distribuem esmolas para conquistar as pessoas. Atraídos por estas motivações, nestes últimos anos, muitos católicos têm abandonado a prática da própria fé para passar a novos movimentos religiosos e seitas.

    47. Além dos grupos genericamente identificados como novos movimentos religiosos e seitas, assinala-se, nas respostas, a existência de uma corrente de pensamento conhecida sob o nome de "New Age", que se estende aceleradamente em todo o âmbito geográfico do Continente e que, além do mais, tem proporções de fenômeno mundial. Esta corrente parte de um relativismo que propõe a superação da problemática da pessoa como sujeito, através de um retorno extático a uma espécie de dança cósmica, enquanto, ao mesmo tempo, oferece um modelo totalmente anti-racionalista da religião, uma mística moderna, segundo a qual Deus não é uma pessoa que está diante do mundo, mas a energia espiritual que invade o Tudo.(68) Em tal perspectiva, é simplesmente inconcebível um encontro pessoal com Deus e, muito mais incompreensível ainda, o mistério da encarnação do Filho de Deus. Por isso as respostas exprimem uma séria preocupação diante do fenômeno da "New Age", que afeta negativamente a identidade religiosa da América e, mais especificamente, a fé cristã e católica. Não se trata de um "inimigo" cujo rosto pode-se ver claramente, pois não é um movimento religioso ou uma seita que se apresenta com um perfil claro e delineado, mas se trata antes de uma modalidade de pensamento que se difunde como corrente intelectual e espiritual, que impregna silenciosamente a cultura contemporânea em muitas de suas expressões.

    48. Várias são as sugestões para se responder ao desafio constituído pelos movimentos religiosos, as seitas e as demais tendências como o New Age. Na IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano foram propostas diversas medidas concretas que já começaram, de alguma maneira, a serem postas em prática em várias partes do Continente: melhoramento da formação através da catequese; maior atenção às celebrações litúrgicas, sobretudo na preparação da homilia; mais colaboração entre sacerdotes e leigos para uma evangelização mais personalizada (especialmente no âmbito da família e da juventude); purificação e promoção da piedade popular; fortalecimento da identidade da Igreja através do cultivo de aspectos que lhe são característicos (devoção à Eucaristia e à Virgem Maria, comunhão com o Pontífice Romano e com o próprio Bispo), etc.(69) Em geral, constata-se que existe um consenso unânime acerca da oportunidade de fortalecer as comunidades católicas mantendo viva a fé em Jesus Cristo através da meditação e da reflexão da Palavra de Deus, da oração (pessoal e comunitária), da prática dos sacramentos (sobretudo da Eucaristia) e da renovação da piedade popular. Um eficaz instrumento na superação destes desafios é a colaboração dos Pastores entre si (em nível de Conferências Episcopais e de encontros regionais dos Arcebispos Metropolitanos com os respectivos Bispos sufragâneos), para poder desenvolver uma pastoral orgânica sobre o tema, que se traduza em ações conjuntas concretas.

    A Igreja Católica como uma comunidade evangelizadora

    49. O mistério da comunhão, na Igreja, está intimamente relacionado com a sua missão evangelizadora. Jesus Cristo mesmo referiu-se à unidade da Igreja como um aspecto que impulsiona e reforça a missão: "Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17,21). O tema da relação entre comunhão e missão pode ser abordado em dois contextos: o da Igreja na América e o da Igreja Universal. Em referência ao primeiro contexto, o Papa João Paulo II apresentou como objetivos da Assembléia sinodal: promover uma nova evangelização em todo o Continente como expressão de comunhão episcopal, incrementar a solidariedade entre as diversas Igrejas particulares nos distintos campos da ação pastoral; iluminar os problemas da justiça e as relações econômicas internacionais entre as nações da América.(70) Nesta terceira parte do presente documento surgiram diversos elementos orientados a obter uma maior cooperação na atividade pastoral entre as diversas Igrejas locais da América e que serão objeto do debate sinodal. No entanto, para além desta perspectiva continental, a relação entre comunhão e missão pode ser considerada em um horizonte mais amplo. Com efeito, a Igreja Católica que está no Continente pode oferecer à evangelização do mundo inteiro um testemunho evangélico de comunhão, de valor incalculável. Assim, por exemplo, considerando que quase a metade dos católicos de todo o mundo vivem na América, pode ser conveniente refletir - como sugerem as respostas aos Lineamenta - acerca do papel que este continente pode exercer na evangelização de outras regiões continentais. Analogamente, considerando que este Continente estende-se do hemisfério Norte ao Sul, resulta evidente que todos os esforços que a Igreja na América poderá realizar para viver mais intensamente a comunhão em nível eclesial, contribuirão eficazmente a que se encontrem caminhos para superar as tensões em nível internacional entre o norte e o sul.