A g n u s D e i

PASTORES DABO VOBIS
João Paulo II
25.03.1992

INTRODUÇÃO

1. «Dar-vos-ei pastores segundo o Meu coração» (Jer 3, 15).

Com estas palavras do profeta Jeremias, Deus promete ao seu povo que jamais o deixará privado de pastores que o reúnam e guiem: «Eu estabelecerei para elas (as minhas ovelhas) pastores, que as apascentarão, de sorte que não mais deverão temer ou amedrontar-se» (Jer 23, 4).

A Igreja, Povo de Deus, experimenta continuamente a realização deste anúncio profético e, na alegria, continua a dar graças ao Senhor. Ela sabe que o próprio Jesus Cristo é o cumprimento vivo, supremo e definitivo da promessa de Deus: «Eu sou o Bom Pastor» (Jo 10, 11). Ele, «o grande Pastor das ovelhas» (Heb 13, 20), confiou aos apóstolos e aos seus sucessores o ministério de apascentar o rebanho de Deus (cf. Jo 21, 15-17; 1 Ped 5, 2).

Sem sacerdotes, de facto, a Igreja não poderia viver aquela fundamental obediência que está no próprio coração da sua existência e da sua missão na história - a obediência à ordem de Jesus : «Ide, pois, ensinai todas as nações» (Mt 28, 19) e «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19; cf. 1 Cor 11, 24), ou seja, a ordem de anunciar o Evangelho e de renovar todos os dias o sacrifício do seu Corpo entregue e do seu Sangue derramado pela vida do mundo.

Pela fé, sabemos que a promessa do Senhor não pode deixar de cumprir-se. Esta promessa é exactamente a razão e a força que faz a Igreja alegrar-se perante o florescimento e o aumento numérico das vocações sacerdotais, que hoje se regista em algumas partes do mundo, e representa o fundamento e o estímulo para um seu acto de maior fé e de esperança mais viva, diante da grave escassez de sacerdotes que pesa noutras partes.

Todos somos chamados a partilhar a confiança plena no ininterrupto cumprimento da promessa de Deus, que os Padres sinodais quiseram testemunhar de modo claro e veemente: «O Sínodo, com plena confiança na promessa de Cristo que disse 'Eis que estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo' (Mt 28, 20) e ciente da actividade constante do Espírito Santo na Igreja, intimamente crê que nunca faltarão completamente na Igreja os ministros sagrados (...) Apesar de se verificar escassez de clero em várias regiões, a acção do Pai, que suscita as vocações, jamais cessará na Igreja» [1].

Como afirmei na conclusão do Sínodo, perante a crise das vocações sacerdotais, «a primeira resposta que a Igreja dá consiste num acto de confiança total no Espírito Santo. Estamos profundamente convictos de que este abandono confiante não há-de decepcionar, entretanto permanecermos fiéis à graça recebida» [2].

2. Permanecer fiéis à graça recebida! De facto, o dom de Deus não anula a liberdade do homem, antes a suscita, desenvolve e exige.

Por este motivo, a confiança total na incondicionada fidelidade de Deus à Sua promessa está ligada na Igreja à grave responsabilidade de colaborar com a acção de Deus que chama, de contribuir para criar e manter as condições nas quais a boa semente , semeada pelo Senhor, possa criar raízes e dar frutos abundantes. A Igreja nunca pode deixar de pedir ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (cf. Mt 9, 38), de dirigir uma clara e corajosa proposta vocacional às novas gerações, de as ajudar a discernir a verdade do chamamento de Deus e a corresponder-lhe com generosidade, e de reservar um cuidado particular à formação dos candidatos ao presbiterado.

Na verdade, a formação dos futuros sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, e o assíduo cuidado, mantido ao longo de toda a vida, em vista da sua santificação pessoal no ministério e da actualização constante no seu empenho pastoral, é considerado pela Igreja como uma das tarefas de maior delicadeza e importância para o futuro da evangelização da humanidade.

Esta obra formadora da Igreja é uma continuação no tempo da obra de Cristo, que o evangelista Marcos indica com as seguintes palavras: «Jesus subiu a um monte e chamou os que Ele quis. E foram ter com Ele. Elegeu doze para andarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios» (Mc 3, 13-15).

Pode afirmar-se que, na sua história, a Igreja reviveu sempre, embora com intensidades e modalidades diversas, esta página do Evangelho, mediante a obra formadora reservada aos candidatos ao presbiterado e aos próprios sacerdotes. Hoje, porém, a Igreja sente-se chamada a reviver com um novo empenho tudo quanto o Mestre fez com os seus apóstolos, solicitada como é pelas profundas e rápidas transformações das sociedades e das culturas do nosso tempo, pela multiplicidade e diversidade dos contextos em que anuncia e testemunha o Evangelho, pelo favorável desenvolvimento numérico das vocações sacerdotais que se regista em diversas Dioceses do mundo, pela urgência de uma nova constatação dos conteúdos e dos métodos da formação sacerdotal, pela preocupação dos Bispos e das suas comunidades com a persistente escassez de clero, pela absoluta necessidade de que a "nova evangelização" tenha nos sacerdotes os seus primeiros "novos evangelizadores".

Foi precisamente neste contexto histórico e cultural que se colocou a última Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada à "Formação dos Sacerdotes nas circunstâncias actuais", com a intenção de, à distância de vinte e cinco anos do final do Concílio, dar cumprimento à doutrina conciliar sobre esta matéria e torná-la mais actual e incisiva nas circunstâncias hodiernas [3].

3. Em continuidade com os textos do Concílio Vaticano II, sobre a ordem dos presbíteros e a sua formação [4], e procurando aplicar às várias situações a rica e respeitável doutrina, a Igreja enfrentou várias vezes os problemas da vida, do ministério e da formação dos sacerdotes.

As ocasiões mais solenes foram os Sínodos dos Bispos. Já na a primeira Assembleia Geral, realizada em Outubro de 1967, o Sínodo dedicou cinco congregações gerais ao tema da renovação dos Seminários. Este trabalho deu impulso decisivo à elaboração, pela Congregação para a Educação Católica, do documento "Normas Fundamentais para a Formação Sacerdotal" [5].

Foi sobretudo a Segunda Assembleia Geral Ordinária de 1971 a dedicar metade dos seus trabalhos ao sacerdócio ministerial. Os frutos deste longo confronto sinodal, retomados e condensados em algumas "recomendações" confiadas ao meu predecessor, o Papa Paulo VI, e lidas na abertura do Sínodo de 1974, diziam respeito principalmente à doutrina sobre o sacerdócio ministerial e a alguns aspectos da espiritualidade e do ministério sacerdotal.

Também em muitas outras ocasiões, o Magistério da Igreja continuou a testemunhar a sua solicitude pela vida e pelo ministério dos sacerdotes. Pode dizer-se que, nos anos do pós-Concílio, não houve intervenção magisterial que, em alguma medida, não tenha contemplado, de modo explícito ou implícito, o sentido da presença dos sacerdotes na comunidade, o seu papel e a sua necessidade para a Igreja e para a vida do mundo.

Nestes anos mais recentes e de várias partes, chamou-se a atenção para a necessidade de voltar ao tema do sacerdócio, enfrentando-o de um ponto de vista relativamente novo e mais adaptado às presentes circunstâncias eclesiais e culturais. O acento deslocou-se do problema da identidade do padre para os problemas relacionados com o itinerário formativo ao presbiterado e com a qualidade de vida dos sacerdotes. Na realidade, as novas gerações dos chamados ao sacerdócio ministerial apresentam características notavelmente distintas relativamente às dos seus imediatos predecessores, e vivem num mundo, em muitos aspectos, novo e em contínua e rápida evolução. E não se pode deixar de ter em conta tudo isto na programação e na realização dos itinerários educativos para o sacerdócio ministerial.

Além disso, os sacerdotes já empenhados, há um tempo mais ou menos longo, no exercício do ministério, parecem hoje sofrer de excessiva dispersão nas sempre crescentes actividades pastorais e, perante as dificuldades da sociedade e da cultura contemporânea, sentem-se constrangidos a repensar o seu estilo de vida e as prioridades das tarefas pastorais, enquanto cada vez mais se dão conta da necessidade de uma formação permanente.

Por isso as preocupações e as reflexões deste Sínodo dos Bispos de 1990 foram dedicadas ao incremento das vocações ao presbiterado, à sua formação para que os candidatos conheçam e sigam Jesus preparando-se para celebrar e viver o sacramento da Ordem que os configura a Cristo Cabeça e Pastor, Servo e Esposo da Igreja, à especificação dos itinerários de formação permanente capazes de ajudar de modo realista e eficaz o ministério e a vida espiritual dos sacerdotes.

Pretendia-se também responder a um pedido feito pelo Sínodo precedente sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. É que os próprios leigos tinham solicitado o empenho dos sacerdotes na formação, para serem oportunamente ajudados no cumprimento da sua missão eclesial. Na verdade, «quanto mais se desenvolve o apostolado dos leigos, tanto mais fortemente é sentida a necessidade de ter sacerdotes que sejam bem formados, sacerdotes santos. Assim, a própria vida do Povo de Deus manifesta o ensinamento do Concílio Vaticano II sobre a relação entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial ou hierárquico. Pois, no mistério da Igreja, a hierarquia tem um carácter ministerial (cf. Lumen gentium, 10). Quanto mais se aprofunda o sentido da vocação própria dos leigos, tanto mais se evidencia o que é próprio do sacerdócio» [6].

4. Na vivência eclesial típica do Sínodo, isto é, «uma singular experiência de comunhão episcopal na universalidade, que reforça o sentido da Igreja universal, a responsabilidade dos Bispos perante a Igreja universal e a sua missão, em comunhão afectiva e efectiva à volta de Pedro» [7], fez-se sentir, clara e diligente, a voz das diversas Igrejas particulares, e neste Sínodo, pela primeira vez, a de algumas Igrejas do Leste, proclamando a sua fé no cumprimento da promessa de Deus - «Dar-vos-ei pastores segundo o Meu coração» (Jer 3, 15) -, e renovando o seu empenho pastoral no cuidado das vocações e na formação dos sacerdotes, conscientes de que delas depende o futuro da Igreja, o seu desenvolvimento e a sua missão universal de salvação.

Retomando agora o rico património das reflexões, orientações e indicações que prepararam e acompanharam os trabalhos dos Padres sinodais, com esta Exortação Apostólica Pós-Sinodal uno à deles a minha voz de Bispo de Roma e de Sucessor de Pedro e dirijo-a ao coração de todos e cada um dos fiéis, em particular ao coração dos sacerdotes e de quantos estão comprometidos no delicado ministério da sua formação. Sim, com todos os sacerdotes e com cada um deles, tanto diocesanos como religiosos, desejo encontrar-me através desta Exortação.

Com os lábios e o coração dos Padres sinodais faço minhas as palavras e os sentimentos da "Mensagem final do Sínodo ao Povo de Deus": «Com a alma reconhecida e cheia de admiração, dirigimo-nos a vós, que sois os nossos primeiros cooperadores no serviço apostólico. A vossa obra na Igreja é verdadeiramente necessária e insubstituível. Vós suportais o peso do ministério sacerdotal e tendes contacto quotidiano com os fiéis. Sois os ministros da Eucaristia, os dispensadores da misericórdia divina no sacramento da Penitência, os consoladores das almas, os guias de todos os fiéis nas tempestuosas dificuldades da vida.

Saudamo-vos de todo o coração, exprimimo-vos a nossa gratidão e exortamo-vos a perseverar nesta via com ânimo alegre e pronto. Não cedais ao desencorajamento. A obra não é nossa, mas de Deus.

Aquele que nos chamou e nos convidou permanece connosco todos os dias da nossa vida. Nós, de facto, somos embaixadores de Cristo» [8].