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Exortação Apostólica Pós-Sinodal
ECCLESIA IN ASIA

VI. O SERVIÇO DE PROMOÇÃO HUMANA

A doutrina social da Igreja

32. No seu serviço à família humana, a Igreja estende a mão a todos os homens e mulheres sem distinção, procurando construir com eles uma civilização de amor, fundada sobre os valores universais da paz, da justiça, da solidariedade e da liberdade, que encontram a sua plenitude em Cristo. Como disse, de forma memorável, o Concílio Vaticano II, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. E não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração». 163 A Igreja, no caso da Ásia com a sua multidão de pobres e oprimidos, é chamada a viver uma comunhão de vida tal que a apresente particularmente comprometida num serviço de amor aos pobres e abandonados.

Se, nos tempos recentes, o Magistério da Igreja tem insistido cada vez mais na necessidade de promover o desenvolvimento autêntico e integral da pessoa humana, 164 fê-lo para dar resposta quer à situação real da população mundial, quer à convicção crescente de que a hostilizarem o bem-estar humano são muitas vezes, não propriamente acções de indivíduos, mas as estruturas da vida social, política e económica. O desequilíbrio palpável no fosso, sempre maior, entre aqueles que beneficiam da crescente capacidade mundial de produzir riqueza e aqueles que são deixados à margem do progresso, reclama uma mudança radical tanto da mentalidade como das estruturas a favor da pessoa humana. O grande desafio moral, que se coloca às nações e à comunidade internacional relativamente ao desenvolvimento, é ter a coragem de uma nova solidariedade, capaz de dar passos engenhosos e eficazes para vencer quer o subdesenvolvimento desumanizante, quer o «sobredesenvolvimento» que tende a reduzir a pessoa a mera unidade económica numa rede consumista sempre mais opressiva. Para provocar esta mudança, «a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer», mas «dá a sua primeira contribuição para a solução do urgente problema do desenvolvimento, quando proclama a verdade acerca de Cristo, de si mesma e do homem, aplicando-a a uma situação concreta». 165 Afinal de contas, o desenvolvimento humano nunca é uma mera questão técnica e económica; mas é fundamentalmente uma questão humana e moral.

A doutrina social da Igreja, que propõe um conjunto de princípios de reflexão, critérios de discernimento e directrizes de acção, 166 é dirigida em primeiro lugar aos membros da Igreja. É essencial que o fiel, comprometido na promoção humana, tenha domínio firme deste precioso corpo de doutrina e faça dele parte integrante da sua missão evangelizadora. Por isso, os Padres Sinodais realçaram a importância de proporcionar aos fiéis — em todas as actividades educativas, e de modo especial nos Seminários e casas de formação — uma sólida preparação em doutrina social da Igreja. 167 Os dirigentes cristãos na Igreja e na sociedade, particularmente os leigos com responsabilidades na vida pública, necessitam de estar bem formados nesta doutrina, para que possam inspirar e vivificar a sociedade civil e as suas estruturas com o fermento do Evangelho. 168 A doutrina social da Igreja não pretende apenas alertar estes dirigentes cristãos para os seus deveres, mas também dar-lhes orientações para a acção em favor do desenvolvimento humano, e libertá-los de falsas noções da pessoa e actividade humana.

A dignidade da pessoa humana

33. Os primeiros agentes e destinatários do desenvolvimento são os seres humanos, não a riqueza nem a tecnologia. Por isso, o género de desenvolvimento que a Igreja promove, aponta para além das questões de economia e tecnologia. Principia e termina na integridade da pessoa humana criada à imagem de Deus e dotada da dignidade que Deus lhe deu e de direitos humanos inalienáveis. As várias declarações internacionais sobre os direitos humanos e tantas iniciativas, que os mesmos inspiraram, são sinal de uma crescente atenção mundial à dignidade da pessoa humana. Infelizmente, tais declarações acabam muitas vezes por ser violadas na prática. Cinquenta anos depois da proclamação solene da Declaração Universal dos Direitos Humanos, muitas pessoas estão ainda sujeitas às formas mais degradantes de exploração e manipulação, que as convertem em verdadeiros escravos dos mais poderosos, sejam eles uma ideologia, um poder económico, um sistema político opressivo, uma tecnocracia científica ou a invadência dos mass-media. 169

Os Padres Sinodais estavam bem cientes da contínua violação dos direitos humanos em muitas partes do mundo, e de modo particular na Ásia onde «largos milhões de pessoas são vítimas de discriminação, exploração, pobreza e marginalização». 170 Eles manifestaram a necessidade de todo o povo de Deus na Ásia chegar a uma maior consciência do desafio inevitável e irrenunciável que é a defesa dos direitos humanos e a promoção da justiça e da paz.

Amor preferencial pelos pobres

34. Ao procurar promover a dignidade humana, a Igreja mostra um amor preferencial pelos pobres e marginalizados, porque o Senhor identificou-Se de forma especial com eles (cf. Mt 25, 40). Este amor não exclui ninguém; simplesmente individua uma prioridade de serviço, que goza do testemunho favorável de toda a tradição da Igreja. «Este amor preferencial pelos pobres, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-tecto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor; não se pode deixar de ter em conta a existência destas realidades. Ignorá-las seria tornar-nos como o "rico epulão", que fingia não conhecer o pobre Lázaro que jazia ao seu portão (cf. Lc 16, 19-31)». 171 Isto é particularmente verdade quando se pensa na Ásia, um continente de abundantes recursos e grandes civilizações, mas onde se encontram algumas das nações mais pobres da terra, e onde mais de metade da população sofre privações, pobreza e exploração. 172 A melhor razão que os pobres da Ásia e do mundo encontrarão para esperar, será sempre o mandamento evangélico de nos amarmos uns aos outros como Cristo nos amou (cf. Jo 13, 34); e a Igreja da Ásia não pode deixar de cumprir seriamente, em palavras e obras, este mandamento para com os pobres.

A solidariedade com os pobres tornar-se-á mais crível, se os próprios cristãos viverem de forma simples, seguindo o exemplo de Jesus. Simplicidade de vida, fé profunda e sincero amor por todos, especialmente pelos pobres e marginalizados, são sinais luminosos do Evangelho em acção. Os Padres Sinodais pediram aos católicos asiáticos que adoptem um estilo de vida coerente com a doutrina do Evangelho, de maneira que possam cumprir melhor a sua missão eclesial, e a própria Igreja se torne uma Igreja dos pobres e para os pobres. 173

No seu amor pelos pobres da Ásia, a Igreja volta-se especialmente para os migrantes, as populações indígenas e tribais, as mulheres e as crianças, visto que frequentemente são vítimas das piores formas de exploração. Também um número incalculável de pessoas sofre discriminação por causa da sua cultura, cor, raça, casta, situação económica, ou modo de pensar. Entre eles, contam-se quantos são maltratados por causa da sua conversão ao cristianismo. 174 Uno-me ao apelo feito pelos Padres Sinodais a todas as nações para que reconheçam o direito à liberdade de consciência e de religião e os restantes direitos humanos básicos. 175

Actualmente a Ásia está experimentando um fluxo sem precedentes de refugiados, pessoas em busca de asilo, imigrantes e trabalhadores estrangeiros. Nos países de chegada, tais indivíduos sentem-se frequentemente desamparados, alienados culturalmente, linguisticamente impreparados, e vulneráveis economicamente. Precisam de apoio e cuidado para preservarem a própria dignidade humana e a sua herança cultural e religiosa. 176 Apesar dos seus recursos limitados, a Igreja da Ásia procura generosamente ser uma casa acolhedora para quantos se sentem cansados e oprimidos, sabendo que eles, no Coração de Jesus onde ninguém é estrangeiro, encontrarão repouso (cf. Mt 11, 28-29).

Em quase todos os países asiáticos, há populações aborígenes consideráveis, algumas delas ocupando o ínfimo grau económico. O Sínodo assinalou mais de uma vez que frequentemente as populações indígenas ou tribais se sentem atraídas pela pessoa de Jesus Cristo e pela Igreja enquanto comunidade de amor e serviço. 177 Aqui jaz um imenso campo de acção, tanto no sector da educação e da assistência sanitária como no âmbito da promoção e participação social. A Comunidade católica precisa de intensificar a acção pastoral no meio deles, prestando atenção aos seus interesses e às questões de justiça que afectam a sua vida. Isto supõe uma atitude de profundo respeito pela sua religião tradicional e seus valores; e inclui também a necessidade de ajudá-los a ajudarem-se a si próprios, de maneira que possam eles mesmos trabalhar para melhorar a sua situação e tornar-se evangelizadores da sua própria cultura e sociedade. 178

Ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento de tantas crianças na Ásia, que caiem vítimas de exploração e violência intoleráveis, não só devido a crimes praticados por indivíduos, mas muitas vezes como consequência directa de estruturas sociais perversas. Os Padres Sinodais identificaram o trabalho infantil, a pedofilia e o fenómeno da droga como males sociais que mais directamente afectam as crianças, deixando claro que são acompanhados por outros males, como a pobreza, males esses concebidos como programas de desenvolvimento nacional. 179 A Igreja deve fazer tudo o que puder para vencer estes males, agir em favor dos explorados, e procurar conduzir os pequeninos ao amor de Jesus, porque deles é o Reino de Deus (cf. Lc 18, 16). 180

O Sínodo exprimiu particular preocupação pelas mulheres, cuja situação permanece um sério problema na Ásia, onde a discriminação e a violência contra elas estão frequentemente instaladas em casa, no lugar de trabalho e mesmo no sistema legal. O analfabetismo é muito mais generalizado entre as mulheres, e muitas são tratadas como simples mercadoria usada na prostituição, turismo e agências de divertimento. 181 No seu combate contra todas as formas de injustiça e discriminação, as mulheres devem achar uma aliada na Comunidade cristã e, por esta razão, o Sínodo propôs que as Igrejas locais da Ásia promovam, onde for possível, os direitos humanos com iniciativas a favor da mulher. O objectivo deve ser provocar uma mudança de atitude, através da própria compreensão do papel do homem e da mulher na família, na sociedade e na Igreja, por meio de uma maior consciência da original complementaridade entre o homem e a mulher, e mediante uma maior valorização da dimensão feminina em todas as realidades humanas. A contribuição da mulher tem sido muitas vezes depreciada ou ignorada, do que resultou um empobrecimento espiritual da humanidade. A Igreja da Ásia quer defender, mais visível e eficazmente, a dignidade e liberdade da mulher, valorizando o seu papel na vida da Igreja, inclusive na sua vida intelectual, e criando também maiores oportunidades para elas estarem presentes e activas na missão de amor e serviço da Igreja. 182

O Evangelho da vida

35. A luta em prol do desenvolvimento humano começa pelo serviço a favor da própria vida. A vida é o grande dom que Deus nos confiou: Ele confiou-no-la como um projecto e uma responsabilidade. Por isso, nós somos os guardiães da vida, não seus proprietários. Recebemos o dom livremente e, em atitude de gratidão, não devemos jamais cessar de o respeitar e defender, desde o seu início até ao termo natural. Desde o momento da concepção, a vida humana supõe a acção criadora de Deus e permanece para sempre numa especial ligação com o Criador, que é a fonte da vida e o seu único fim. Não há verdadeiro progresso, nem sociedade civil autêntica, nem real promoção humana, sem o respeito pela vida humana, especialmente pela vida daqueles que não têm voz para se defenderem a si próprios. A vida de cada pessoa, quer a de uma criança no ventre de sua mãe, quer a de alguém que está doente, é deficiente ou idoso, é um dom para todos.

Os Padres Sinodais reafirmaram, com cordial adesão, a doutrina acerca da sacralidade da vida humana, ensinada pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério posterior, nomeadamente a Encíclica Evangelium vitæ. Uno-me aqui ao apelo que dirigiram aos fiéis dos seus países — onde frequentemente a questão demográfica é usada como argumento para a necessidade de introduzir o aborto e programas de controle artificial da população —, para que se oponham à «cultura de morte». 183 Eles podem mostrar a sua fidelidade a Deus e o seu compromisso com a verdadeira promoção humana, apoiando e participando em programas que defendam a vida dos que são impotentes para se defenderem a si próprios.

Serviço de saúde

36. Seguindo os passos de Jesus Cristo, que teve compaixão de todos e curou «todas as enfermidades e moléstias» (Mt 9, 35), a Igreja da Ásia está decidida a empenhar-se cada vez mais no cuidado dos doentes, visto que este é parte vital da missão que ela tem para oferecer a graça salvífica de Cristo a todas as pessoas. Como o bom samaritano da parábola (cf. Lc 10, 29-37), a Igreja deseja cuidar dos doentes e deficientes de modo concreto, 184 sobretudo nos lugares onde as pessoas estão privadas da assistência médica elementar por causa da pobreza e marginalização.

Em numerosas ocasiões durante as minhas visitas à Igreja nas várias partes do mundo, fiquei profundamente impressionado pelo extraordinário testemunho cristão dado por religiosos e pessoas consagradas, médicos, enfermeiros e outro pessoal do serviço de saúde, especialmente aqueles que trabalham com os deficientes, no âmbito dos cuidados terminais, ou lutam contra a difusão de novas doenças como a SIDA. De forma sempre crescente, o pessoal que trabalha no serviço cristão de saúde é chamado a ser generoso e altruísta para olhar pelas vítimas da dependência da droga e da SIDA, que muitas vezes são desprezadas e abandonadas pela sociedade. 185 Há muitas instituições médicas católicas na Ásia, que estão a enfrentar pressões de políticas do serviço público de saúde não baseadas em princípios cristãos, e muitas delas são sobrecarregadas por exigências financeiras sempre maiores. Apesar destes problemas, o altruísmo exemplar e o devotado profissionalismo do pessoal aí empenhado permite proporcionar um admirável e valioso serviço à comunidade e um sinal, particularmente visível e eficaz, do amor inexaurível de Deus. O pessoal do serviço de saúde deve ser estimulado e apoiado no bem que fazem. O seu empenhamento e eficácia permanente são o meio melhor para assegurar a penetração profunda dos valores e princípios cristãos nos sistemas de serviço de saúde neste Continente, transformando-os a partir de dentro. 186

Educação

37. Por toda a Ásia, o envolvimento da Igreja na educação é amplo e bem visível, sendo, portanto, um elemento-chave da sua presença no meio dos povos do continente. Em muitos países, as escolas católicas jogam um papel importante na evangelização, inculturando a fé, ensinando hábitos de sinceridade e respeito, e fomentando o entendimento interreligioso. Muitas vezes as escolas da Igreja oferecem as únicas oportunidades educativas para as meninas, as minorias tribais, os pobres do campo e as crianças menos privilegiadas. Os Padres Sinodais estavam persuadidos da necessidade de ampliar e desenvolver o apostolado da educação na Ásia, com uma atenção particular aos mais desfavorecidos, para que todos sejam ajudados a ocupar o seu justo lugar como cidadãos de pleno direito na sociedade. 187 Como observaram os Padres Sinodais, isto significa que o sistema de educação católica deve orientar-se ainda mais nitidamente para a promoção humana, proporcionando um ambiente onde os estudantes recebam não só os elementos formais de escolaridade mas, mais amplamente, uma formação humana integral baseada nos ensinamentos de Cristo. 188 As escolas católicas hão-de continuar a ser lugares onde a fé possa ser livremente proposta e recebida. De igual modo, as universidades católicas, para além de manterem a excelência académica por que são já bem conhecidas, devem conservar uma clara identidade cristã para serem o fermento cristão na sociedade asiática. 189

Construção da paz

38. No final do século vinte, o mundo encontra-se ainda ameaçado por forças que geram conflitos e guerras, e a Ásia não está por certo isenta delas. Entre estas forças, contam-se a intolerância e a marginalização de qualquer espécie que seja — social, cultural, política e mesmo religiosa. Dia a dia, novas violências são infligidas a indivíduos e nações inteiras, estando esta cultura de morte ligada com o recurso injustificado à violência como meio para resolver as tensões. Frente à situação de terríveis conflitos em tantas partes do mundo, a Igreja é chamada a empenhar-se profundamente nos esforços internacionais e interreligiosos para se alcançar a paz, a justiça e a reconciliação. Ela continua a insistir na resolução negociada e pacífica dos conflitos, e aguarda o dia em que as nações deixarão de lado a guerra como instrumento para fazer reivindicações ou meio para resolver divergências. A Igreja está convencida de que a guerra cria mais problemas do que resolve, que o diálogo é o único caminho justo e nobre para se chegar a acordo e à reconciliação, e que a arte paciente e sábia de fazer a paz é particularmente abençoada por Deus.

Particularmente inquietante na Ásia, é a corrida contínua à aquisição de armas de destruição de massa, uma despesa imoral e devastante em orçamentos nacionais que, nalguns casos, ainda não consegue satisfazer as necessidades básicas da população. Os Padres Sinodais falaram também do número imenso de minas semeadas em terra asiática, que mutilaram ou mataram centenas de milhares de pessoas inocentes, e ao mesmo tempo roubaram terra fértil que poderia, caso contrário, ser usada para a produção de alimentos. 190 É responsabilidade de todos, especialmente dos governantes das nações, trabalhar mais decididamente em prol do desarmamento. O Sínodo pediu a interrupção do fabrico, venda e uso de armas nucleares, químicas e biológicas, e exigiu que os responsáveis pela colocação das minas prestem agora assistência no trabalho de bonificação dos terrenos. 191 E, acima de tudo, os Padres Sinodais pediram a Deus, o único a conhecer as profundezas de cada consciência humana, que infunda sentimentos de paz no coração de quantos se sentem tentados a seguir o caminho da violência, para que se realize a visão bíblica: «Das suas espadas, [os povos] forjarão relhas de arados, e das suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra nação, e não se adestrarão mais para a guerra» (Is 2, 4).

O Sínodo ouviu muitos testemunhos relativos aos sofrimentos do povo do Iraque, assegurando que muitos iraquenos, sobretudo crianças, morreram devido à falta de remédios e de outros artigos básicos, por causa da continuação do embargo. Com os Padres Sinodais, exprimo uma vez mais a minha solidariedade ao povo do Iraque, e estou particularmente unido na oração e na esperança com os filhos e filhas da Igreja naquele país. O Sínodo pediu a Deus para que iluminasse as mentes e corações de quantos têm a responsabilidade de encontrar uma justa solução para a crise, a fim de que, a um povo já duramente provado, sejam poupados ulteriores sofrimentos e penas. 192

Globalização

39. Ao considerarem a questão da promoção humana na Ásia, os Padres Sinodais reconheceram a importância do processo de globalização económica. Ao mesmo tempo que reconheciam vários dos seus efeitos positivos, sublinharam que tem contribuído também para prejudicar os pobres, 193 tendendo a impelir os países mais pobres para a periferia das relações económicas e políticas internacionais. Muitas nações asiáticas não estão preparadas para se integrarem numa economia global de mercado. E existe também o outro aspecto, de certo modo mais significativo, que é a globalização cultural, que os actuais meios de comunicação social tornaram possível e que está arrastando rapidamente as sociedades asiáticas para uma cultura global consumista, que é simultaneamente secularista e materialista. O resultado é a corrosão da família tradicional e dos valores sociais que serviram até agora de suporte a pessoas e sociedades. Tudo isto põe em evidência que os aspectos éticos e morais da globalização precisam de ser guiados mais directamente pelos dirigentes das nações e pelas organizações interessadas na promoção humana.

A Igreja insiste na necessidade de «uma globalização sem marginalização». 194 Com os Padres Sinodais, convido as Igrejas particulares de toda a parte, e especialmente as dos países ocidentais, a trabalharem para assegurar que a doutrina social da Igreja tenha o devido impacto sobre a formulação de normas éticas e jurídicas que regulem o livre mercado mundial e os meios de comunicação social. Os dirigentes e profissionais católicos pressionem os Governos e as instituições de finanças e de comércio, para que reconheçam e respeitem tais normas. 195

Dívida externa

40. Além disso a Igreja, na sua luta pela justiça num mundo marcado por desigualdades sócio-económicas, não pode ignorar o pesado fardo da dívida contraída por muitas nações asiáticas em vias de desenvolvimento, com o consequente impacto sobre o seu presente e futuro. Em muitos casos, estes países são forçados a cortar as despesas para necessidades vitais, como alimentação, saúde, habitação e educação, para satisfazerem as suas dívidas a agências financeiras internacionais e bancos. Isto significa que muitas pessoas estão condenadas a condições de vida que são uma afronta à dignidade humana. Embora ciente da complexidade técnica desta matéria, o Sínodo declarou que a sua resolução põe à prova a capacidade de indivíduos, sociedades e Governos avaliarem a pessoa e as vidas de milhões de seres humanos acima das considerações de vantagens financeiras e materiais. 196

A aproximação do Grande Jubileu do Ano 2000 é um tempo oportuno para as Conferências Episcopais de todo o mundo, especialmente as das nações mais ricas, incitarem as agências financeiras internacionais e os bancos a individuarem meios que melhorem esta situação da dívida internacional. Entre os mais óbvios deles, aparecem a renegociação da dívida, com uma substancial redução ou puro e simples cancelamento, e também contratos de empreendimentos e investimentos para assistir as economias dos países mais pobres. 197 Ao mesmo tempo, os Padres Sinodais dirigiram-se também aos países devedores, salientando a necessidade de se desenvolver um sentido de responsabilidade nacional, lembrando-lhes a importância de planear uma economia sólida e de uma acção transparente e honesta de governo, e convidando-os a empenharem-se numa decidida campanha contra a corrupção. 198 Eles apelaram aos cristãos da Ásia para condenarem todas as formas de corrupção e apropriação indevida de fundos públicos por aqueles que detêm o poder político. 199 Os cidadãos dos países endividados foram muitas vezes vítimas de desperdício e ineficácia na própria pátria, antes de caírem vítimas da dívida internacional.

O meio ambiente

41. Quando o interesse pelo progresso económico e tecnológico não é acompanhado de igual atenção pelo equilíbrio do ecossistema, a nossa terra fica inevitavelmente sujeita a sérios danos ecológicos, com consequente dano para o bem-estar dos homens. A falta flagrante de respeito pelo ambiente natural persistirá enquanto a terra e suas potencialidades forem vistas meramente como objecto de uso e consumo imediato, algo a ser manipulado pelo insaciável desejo de lucro. 200 É obrigação dos cristãos e de quantos olham para Deus como Criador proteger o meio ambiente, recuperando o sentido de veneração por todas as criaturas de Deus. É vontade do Criador que o homem se ocupe da natureza, não como um bárbaro explorador, mas como administrador inteligente e responsável. 201 Os Padres Sinodais advogaram de maneira especial uma maior responsabilidade por parte dos governantes das nações, legisladores, empresários e todos os que estão directamente envolvidos na administração dos recursos da terra. 202 Eles sublinharam a necessidade de educar as pessoas, especialmente os jovens, para a responsabilidade ambiental, instruindo-as no cargo de administradores que Deus confiou à humanidade sobre a criação. A protecção do meio ambiente não é só uma questão técnica, mas também e sobretudo uma questão ética. Todos têm obrigação moral de olhar pelo meio ambiente, não apenas para vantagem própria, mas também em proveito das gerações futuras.

Ao concluir estas reflexões, vale a pena recordar que os Padres Sinodais, ao chamarem os cristãos para se comprometerem e sacrificarem ao serviço do desenvolvimento humano, fizeram-no movidos por algumas das intuições mais profundas da tradição bíblica e eclesiástica. O antigo Israel insistiu apaixonadamente sobre o vínculo inquebrantável entre o culto de Deus e o cuidado pelo débil, que a Sagrada Escritura, tipicamente, exemplifica como «a viúva, o estrangeiro e o órfão» (cf. Ex 22, 21-22; Dt 10, 18; 27, 19), que eram, na sociedade de então, os mais vulneráveis à ameaça de injustiça. Mais tarde, no tempo dos Profetas, ouvimos o grito pela justiça, pela recta ordenação da sociedade humana, sem o que não pode haver verdadeiro culto de Deus (cf. Is 1, 10-17; Am 5, 21-24). Assim no apelo dos Padres Sinodais, ouvimos um eco dos Profetas, que foram cheios do Espírito do Senhor que deseja «misericórdia e não sacrifícios» (Os 6, 6). Jesus fez suas estas palavras (cf. Mt 9, 13), e o mesmo se diga dos Santos em todo o tempo e lugar. Considera estas palavras de S. João Crisóstomo: «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: "Isto é o meu Corpo", confirmando o facto com a sua palavra, também afirmou: "Vistes-Me com fome e não Me destes de comer" (...). De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra». 203 No apelo do Sínodo a favor do desenvolvimento humano e da justiça nas questões humanas, ouve-se ressoar uma voz que é, simultaneamente, antiga e nova. É antiga, porque surge das profundezas da nossa Tradição cristã, que aponta para aquela harmonia profunda querida pelo Criador; é nova, porque toca a situação imediata de tantos povos da Ásia actual.