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Exortação Apostólica Pós-Sinodal
ECCLESIA IN ASIA

I. O CONTEXTO ASIÁTICO

A Ásia, terra natal de Jesus e da Igreja

5. A encarnação do Filho de Deus, que toda a Igreja comemorará solenemente no Grande Jubileu do Ano 2000, deu-se num contexto histórico e geográfico definido. Este contexto exerceu uma importante influência na vida e missão do Redentor enquanto homem. «Em Jesus de Nazaré, Deus assumiu as características próprias da natureza humana, incluindo a pertença obrigatória do indivíduo a um povo concreto e a uma determinada terra. (...) A dimensão concreta e física da terra e as suas coordenadas geográficas fazem parte da verdade da carne humana assumida pelo Verbo».7 Por conseguinte, o conhecimento do mundo onde o Salvador «habitou entre nós» (Jo 1, 14) é uma chave importante para a compreensão mais exacta do desígnio do Eterno Pai e da imensidão do seu amor por toda a criatura: «Porque Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).

Da mesma forma, a Igreja vive e cumpre a sua missão nas circunstâncias actuais de tempo e lugar. É essencial um conhecimento crítico das diversas e complexas realidades da Ásia, se o Povo de Deus neste Continente quiser corresponder ao desígnio duma nova evangelização que Deus tem sobre ele. Os Padres Sinodais afirmaram insistentemente que a missão de amor e serviço da Igreja na Ásia está condicionada por dois factores: por um lado, a compreensão de si própria como uma comunidade de discípulos de Jesus Cristo congregada à volta dos seus Pastores, e, por outro, as realidades sociais, políticas, religiosas, culturais e económicas da Ásia.8 A situação da Ásia foi examinada detalhadamente durante o Sínodo por aqueles que vivem em contacto diário com as realidades, extremamente diversificadas, de tão imenso Continente. O que se segue é, em síntese, o resultado das reflexões dos Padres Sinodais.

Realidades religiosas e culturais

6. A Ásia é o continente mais vasto da terra e a casa de aproximadamente dois terços da população mundial, contando a China e a Índia quase metade da população total do globo. A característica mais notável do Continente é a variedade das suas populações, que são «herdeiras de antigas culturas, religiões e tradições».9 Não podemos deixar de ficar maravilhados perante a imensidão da população da Ásia e o complexo mosaico das suas múltiplas culturas, línguas, crenças e tradições, que abrangem uma parte substancial da história e do património da família humana.

A Ásia é também o berço das maiores religiões do mundo: judaísmo, cristianismo, islamismo e hinduísmo. É a terra natal de muitas outras tradições espirituais como o budismo, taoísmo, confucionismo, zoroastrismo, jainismo, sikhismo e xintoísmo. São milhões também os que vivem comprometidos com religiões tradicionais ou tribais, com variados graus de um complexo ritual e de ensino religioso formal. A Igreja nutre o mais profundo respeito por estas tradições e deseja empenhar-se num diálogo sincero com os seus seguidores. Os valores religiosos, que ensinam, aguardam pelo seu pleno cumprimento em Jesus Cristo.

O povo da Ásia ufana-se dos seus valores religiosos e culturais, tais como amor ao silêncio e contemplação, simplicidade, harmonia, desprendimento, não-violência, espírito de sacrifício, disciplina, vida frugal, sede de saber e indagação filosófica.10 Tem em grande apreço os valores do respeito pela vida, compaixão por todos os seres, cuidado com a natureza, piedade filial pelos familiares, idosos e antepassados, e um sentido muito vivo de comunidade.11 De maneira particular, considera a família como uma fonte vital de energia, como uma comunidade tecida intimamente por um poderoso sentimento de solidariedade.12 Os povos asiáticos são conhecidos pelo seu espírito de tolerância religiosa e de coexistência pacífica. Sem negar a existência de dolorosas tensões e violentos conflitos, pode-se tranquilamente afirmar que a Ásia demonstrou frequentemente uma notável capacidade de adaptação e uma abertura natural ao mútuo enriquecimento das pessoas no meio de uma pluralidade de religiões e culturas. Além disso, apesar da influência da modernidade e da secularização, as religiões asiáticas estão a mostrar sinais de grande vitalidade e uma boa capacidade de renovação, como se vê pelos movimentos reformistas no âmbito dos diversos grupos religiosos. Muitas pessoas, sobretudo jovens, sentem um profundo desejo de valores espirituais, como bem o demonstra o aparecimento de novos movimentos religiosos.

Tudo isto aponta para uma natural percepção espiritual e sabedoria moral no espírito asiático e constitui o centro à volta do qual se formou um sentido crescente de «ser asiático». Este «ser asiático» identificou-se e foi-se consolidando, não no confronto e oposição, mas no espírito de complementaridade e harmonia. Nesta trama feita de complementaridade e harmonia, a Igreja há-de comunicar o Evangelho de modo tal que seja simultaneamente fiel à sua própria Tradição e ao espírito asiático.

Realidades económicas e sociais

7. Quanto ao andamento do progresso económico, são muito diversas as situações no continente asiático, impedindo uma simples classificação. Alguns países são superdesenvolvidos, outros estão a desenvolver-se graças a efectivas políticas económicas, e outros ainda encontram-se em degradante pobreza, contando-se de facto entre as nações mais pobres da terra. Com o processo de desenvolvimento, foram também ganhando terreno, sobretudo nas áreas urbanas, o materialismo e o secularismo. Estas ideologias, que minam os valores sociais e religiosos tradicionais, ameaçam as culturas da Ásia, com um dano incalculável.

Os Padres Sinodais falaram das rápidas mudanças, que se estão a verificar nas sociedades asiáticas, e dos aspectos positivos e negativos das mesmas. Dentre elas conta-se o fenómeno da urbanização e o aparecimento de imensos aglomerados urbanos, frequentemente com largas áreas deprimidas, onde prolifera o crime organizado, o terrorismo, a prostituição e a exploração das faixas débeis da sociedade. Também a migração é um fenómeno social saliente, expondo milhões de pessoas a situações penosas económica, cultural e moralmente. As pessoas emigram, quer dentro da Ásia quer da Ásia para outros continentes, por muitas razões, sendo algumas delas a pobreza, a guerra e os conflitos étnicos, a negação dos seus direitos humanos e liberdades fundamentais. A constituição de complexos industriais gigantes é outra causa de emigração interna e externa, com efeitos devastantes sobre a vida e valores familiares. Também se fez menção da construção de potentes instalações nucleares, escolhidas pelo seu custo e eficiência mas com pouco respeito pela saúde das populações e pela integridade do ambiente.

A realidade do turismo justifica também especial atenção. Embora sendo uma actividade legítima com seus próprios valores culturais e educativos, o turismo exerce, nalguns casos, uma influência devastadora no cenário moral e físico de muitos países asiáticos, patente na degradação de jovens e até crianças pela prostituição.13 O cuidado pastoral tanto dos migrantes como dos turistas é difícil e complexo, sobretudo na Ásia onde faltam as estruturas básicas para o efeito. Ao planear a pastoral, a todos os níveis, é necessário tomar estas realidades em consideração. Neste contexto, devemos não esquecer os migrantes das Igrejas Católicas Orientais que necessitam de cuidados pastorais de acordo com as suas próprias tradições eclesiásticas.14

Vários países asiáticos enfrentam dificuldades relacionadas com o crescimento da população, que não é «simplesmente um problema demográfico e económico, mas sobretudo um problema moral».15 É claro para todos que a questão da população está estritamente ligada com a promoção humana, mas abundam falsas soluções que atentam contra o carácter inviolável e a dignidade da vida, e constituem um desafio especial para a Igreja da Ásia. Talvez neste momento venha a propósito lembrar a contribuição da Igreja para a defesa e promoção da vida, através de cuidados sanitários, do desenvolvimento social e da educação, para benefício das pessoas, sobretudo dos pobres. Era oportuno que esta Assembleia Especial para a Ásia prestasse homenagem à falecida Madre Teresa de Calcutá, «que se tornou conhecida em todo o mundo pelo seu amor e generosa solicitude pelos mais pobres dos pobres».16 Ela permanece como um ícone do serviço à vida que a Igreja está a oferecer à Ásia, contrastando corajosamente com muitas forças ocultas em acção na sociedade.

Um certo número de Padres Sinodais sublinhou as influências externas que estão a penetrar nas culturas asiáticas. Vão surgindo formas novas de comportamento resultantes da orientação dos mass-media e dos tipos de literatura, música e filmes que estão a proliferar no Continente. Sem negar que os meios de comunicação social podem ser uma grande força para o bem,17 não se pode ignorar o impacto negativo que frequentemente produzem. De facto, os seus efeitos benéficos podem ser sobrepujados pelo modo como são controlados e utilizados por pessoas com interesses política, económica e ideologicamente discutíveis. Em consequência disso, os aspectos negativos dos mass-media e espectáculos estão a ameaçar os valores tradicionais, e de modo particular a sacralidade do matrimónio e a estabilidade da família. O efeito de imagens de violência, hedonismo, individualismo e materialismo desenfreado «é impressionante no íntimo das culturas asiáticas, no carácter religioso das pessoas, famílias e sociedades inteiras».18 Esta é uma situação que oferece um grande desafio à Igreja e à proclamação da sua mensagem.

A realidade persistente de pobreza e exploração de pessoas é objecto da mais premente preocupação. Na Ásia, há milhões de pessoas oprimidas, que, durante séculos, foram postas económica, cultural e politicamente à margem da sociedade.19 Ao reflectirem sobre a situação da mulher nas sociedades asiáticas, os Padres Sinodais observaram que, «embora o despertar da consciência da mulher para a sua dignidade e os seus direitos seja um dos sinais dos tempos mais significativos, a pobreza e a exploração da mulher continua a ser um problema sério por toda a Ásia».20 O analfabetismo feminino é muito superior ao masculino; e as crianças de sexo feminino sofrem maior probabilidade de ser abortadas ou mesmo assassinadas depois do nascimento. Existem também milhões de indígenas ou populações tribais por toda a Ásia que vivem segregados social, cultural e politicamente da população dominante.21 Foi tranquilizador ouvir os Bispos dizerem ao Sínodo que, nalguns casos, estas questões estão a ser objecto de maior atenção a nível nacional, regional e internacional, e que a Igreja está activamente empenhada a perorar esta séria situação.

Os Padres Sinodais puseram em destaque que esta reflexão, necessariamente breve, sobre as realidades económicas e sociais da Ásia não seria completa se não se reconhecesse também o vasto crescimento económico que, nas últimas décadas, caracterizou muitas sociedades asiáticas: uma nova geração de operários especializados, cientistas, técnicos está crescendo diariamente, e o seu grande número é de bom auspício para o desenvolvimento da Ásia. Apesar disso, nem tudo é estável e seguro em tal progresso, como ficou patente na recente e profunda crise financeira sofrida por numerosos países asiáticos. O futuro da Ásia reside na cooperação, tanto no âmbito interno como com as nações de outros continentes, mas há-de ser sempre edificado sobre o que os asiáticos fazem em ordem ao seu próprio desenvolvimento.

Realidades políticas

8. A Igreja precisa sempre de ter uma compreensão exacta da situação política nos diversos países onde ela procura cumprir a sua missão. Na Ásia, actualmente o panorama político é muito complexo, ostentando um leque de ideologias que varia desde formas democráticas de governo até formas teocráticas. Ditaduras militares e ideologias ateias estão muito presentes. Alguns países reconhecem uma religião oficial de Estado, que deixa pouca ou nenhuma liberdade religiosa às minorias e aos seguidores de outras religiões. Outros Estados, embora não explicitamente teocráticos, reduzem as minorias a cidadãos de segunda classe com menor salvaguarda dos seus direitos fundamentais. Nalguns lugares, não é permitido aos cristãos praticarem livremente a sua fé nem anunciar Jesus aos outros.22 São perseguidos e é-lhes negado o seu justo lugar na sociedade. Os Padres Sinodais recordaram de maneira particular o povo da China, manifestando a veemente esperança de que todos os seus irmãos e irmãs chineses católicos tenham um dia a possibilidade de cumprir livremente a sua religião e professar visivelmente a sua plena comunhão com a Sé de Pedro.23

Ao mesmo tempo que manifestavam apreço pelo progresso que muitos países asiáticos estão a realizar nas suas diferentes formas de governo, os Padres Sinodais chamaram a atenção para a larga corrupção que existe a vários níveis tanto do governo como da sociedade.24 E frequentemente as pessoas vêem-se abandonadas na sua própria defesa contra políticos, juízes, administradores e funcionários corruptos. Mas, por toda a Ásia vai crescendo a consciência da capacidade do povo para mudar estruturas injustas. Existem novas reivindicações de maior justiça social, de mais participação no governo e na vida económica, de iguais oportunidades na educação, e duma justa partilha dos recursos da nação. De forma crescente as pessoas vão-se tornando conscientes da sua dignidade e direitos humanos, e mais determinadas a salvaguardá-los. Longamente adormecidos, grupos étnica, social e culturalmente minoritários estão a procurar o modo de se tornarem agentes do seu próprio desenvolvimento social. O Espírito de Deus ajuda e sustenta os esforços das pessoas para transformar a sociedade de tal modo que o anseio humano duma vida em abundância possa ser satisfeito como Deus quer (cf. Jo 10, 10).

A Igreja da Ásia: passado e presente

9. A história eclesial na Ásia é tão antiga como a própria Igreja, porque foi neste Continente que Jesus derramou o Espírito Santo sobre os seus discípulos e os enviou até aos confins da terra para proclamarem a Boa Nova e congregarem os crentes em comunidades. «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21; veja-se também Mt 28, 18-20; Mc 16, 15-18; Lc 24, 47; Act 1, 8). Obedecendo ao mandato do Senhor, os Apóstolos pregaram a Palavra e fundaram Igrejas. Pode servir de ajuda lembrar aqui alguns elementos desta história fascinante e complexa.

Partindo de Jerusalém, a Igreja dilatou-se até Antioquia, Roma e mais além. Chegou à Etiópia a sul, à Cita a norte, e à Índia a oriente, onde, segundo a tradição, esteve o apóstolo S. Tomé pelo ano 52 e fundou Igrejas no sul da Índia. O espírito missionário da Comunidade Síria Oriental dos séculos III e IV, com centro em Edessa, foi notável. As comunidades ascéticas da Síria foram uma força considerável de evangelização na Ásia desde o século III em diante. Elas deram energia espiritual à Igreja, sobretudo durante os tempos de perseguição. A Arménia foi a primeira nação em bloco a abraçar o cristianismo; isto deu-se no final do século III, preparando-se ela agora para celebrar os 1700 anos do seu baptismo. Pelo fim do século V, a mensagem cristã chegou aos Reinos Árabes, mas por diversas razões, sendo uma delas as divisões entre cristãos, a mensagem não conseguiu lançar raízes entre estes povos.

Comerciantes persas levaram a Boa Nova até à China no século V. A primeira igreja cristã foi lá construída no início do século VII. Durante a dinastia T'ang (618-907), a Igreja floresceu por cerca de duzentos anos. O declínio desta entusiasta Igreja da China, nos fins do primeiro milénio, é um dos capítulos mais tristes da história do Povo de Deus no Continente.

No século XIII, a Boa Nova foi anunciada aos Mongóis e aos Turcos e novamente aos Chineses. Mas o cristianismo quase desapareceu nestas regiões por numerosos motivos, contando-se entre eles o ressurgimento do islamismo, o isolamento geográfico, a falta de uma adaptação apropriada às culturas locais e, talvez acima de tudo, a falta de preparação para ir ao encontro das grandes religiões da Ásia. O fim do século XIV viu uma diminuição drástica da Igreja na Ásia, à excepção da comunidade isolada no sul da Índia. A Igreja da Ásia tem de esperar uma nova era de esforço missionário.

O trabalho apostólico de S. Francisco Xavier, a fundação da Congregação Propaganda Fide pelo Papa Gregório XV, e as orientações dadas aos missionários para respeitarem e estimarem as culturas locais, tudo contribuiu para se obter resultados muito positivos no decurso do século XVI e XVII. No século XIX, houve novamente um ressurgimento da actividade missionária. Várias congregações religiosas empenharam-se completamente nesta tarefa. A Congregação Propaganda Fide foi reorganizada. A insistência maior foi posta sobre a edificação das Igrejas locais. Obras educativas e caritativas andavam de mãos dadas com a pregação do Evangelho. Consequentemente a Boa Nova continuou a estender-se a um número sempre maior de pessoas, sobretudo entre os pobres e marginalizados, mas também, aqui e além, no meio de elites sociais e intelectuais. Fizeram-se novas tentativas para inculturar a Boa Nova, embora se revelassem ainda insuficientes. Não obstante a sua presença por longos séculos e os seus múltiplos esforços apostólicos, a Igreja em muitos lugares é ainda considerada como estranha à Ásia, tendo mesmo sido associada muitas vezes, na mente das pessoas, com os poderes coloniais.

Esta era a situação nas vésperas do Concílio Vaticano II; mas, graças ao impulso dado pelo Concílio, despertou uma nova compreensão da missão e, com ela, uma grande esperança. A universalidade do plano divino da salvação, a natureza missionária da Igreja e a responsabilidade de todos e cada um na Igreja por esta tarefa, tão fortemente reafirmadas no Decreto conciliar sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, tornou-se a estrutura de um novo compromisso. Durante a Assembleia Especial, os Padres Sinodais deram testemunho do recente crescimento da comunidade eclesial no meio dos mais diversos povos e em várias partes do Continente, e apelaram para novos esforços missionários nos anos vindouros, especialmente com as novas possibilidades abertas à proclamação do Evangelho na Região Siberiana e nos países da Ásia Central que conquistaram recentemente a sua independência como Casaquistão, Usbequistão, Quirguistão, Tajiquistão e Turquemenistão.25

Uma análise das comunidades católicas na Ásia mostra uma variedade magnífica quer pela sua origem e desenvolvimento histórico, quer por causa das diferentes tradições espirituais e litúrgicas dos vários ritos. Mas, todas elas estão unidas na proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo através do testemunho cristão e das obras de caridade e de solidariedade humana. Enquanto algumas Igrejas particulares cumprem a sua missão em paz e liberdade, outras encontram-se em situações de violência e conflito ou sentem-se ameaçadas por grupos vários, por motivos religiosos ou de outra espécie. No mundo cultural imensamente diversificado da Ásia, a Igreja enfrenta múltiplos desafios filosóficos, teológicos e pastorais. A sua missão torna-se mais difícil pelo facto de ser uma minoria, com a única excepção das Filipinas, onde os católicos são a maioria.

Independentemente das circunstâncias, a Igreja na Ásia encontra-se no meio de pessoas que mostram um forte anseio de Deus. A Igreja reconhece que este anseio só pode ser plenamente satisfeito por Jesus Cristo, a Boa Nova de Deus para todas as nações. Os Padres Sinodais insistiram muito que esta Exortação Apostólica Pós-Sinodal focasse a sua atenção sobre tal anseio e encorajasse a Igreja da Ásia a proclamar vigorosamente, por palavras e obras, que Jesus Cristo é o Salvador.

O Espírito de Deus, sempre activo na história da Igreja da Ásia, continua a guiá-la. Os numerosos elementos positivos que se encontram nas Igrejas locais, postos frequentemente em evidência no Sínodo, reforçam a nossa expectativa de uma «nova primavera de vida cristã».26 Um sólido motivo de esperança é o número crescente de leigos, melhor formados e cheios de entusiasmo e de Espírito, que estão cada vez mais conscientes da sua vocação específica dentro da comunidade eclesial. Dentre eles, merecem especial reconhecimento e louvor os leigos catequistas.27 Também os movimentos apostólicos e carismáticos são um dom do Espírito, trazendo nova vida e vigor à formação de homens e mulheres leigos, de famílias e de jovens.28 Associações e movimentos eclesiais, devotados à promoção da dignidade humana e da justiça, tornam acessível e palpável a universalidade da mensagem evangélica da nossa adopção como filhos de Deus (cf. Rom 8, 15-16).

Ao mesmo tempo, há Igrejas que vivem em circunstâncias muito difíceis, «passando por grandes provações na prática da sua fé».29 Os Padres Sinodais ficaram comovidos com as narrações do testemunho heróico, perseverança inabalável e crescimento constante da Igreja Católica na China, com os esforços feitos pela Igreja da Coreia do Sul para prestar assistência ao povo da Coreia do Norte, a firmeza humilde da comunidade católica no Vietname, o isolamento de cristãos em muitos lugares do Laos e de Myanmar, a difícil coexistência com a maioria nalguns Estados predominantemente islâmicos.30 O Sínodo prestou uma especial atenção à situação da Igreja na Terra Santa e na Cidade Santa de Jerusalém, «o coração do cristianismo»,31 cidade amada por todos os filhos de Abraão. Os Padres Sinodais exprimiram a convicção de que a paz na região, e mesmo no mundo, depende em grande medida da paz e reconciliação que há tanto tempo desapareceu de Jerusalém.32

Não posso dar por terminada esta análise da situação da Igreja na Ásia, embora longe de ser completa, sem mencionar os Santos e Mártires da Ásia — quer os que como tal foram reconhecidos, quer aqueles que são conhecidos apenas de Deus —, cujo exemplo é uma fonte de «riqueza espiritual e um grande instrumento de evangelização».33 Falam, silenciosa mas vigorosamente, da importância da santidade de vida e da prontidão em oferecer a própria vida pelo Evangelho. Eles são os mestres e protectores, a glória da Igreja da Ásia, no seu trabalho de evangelização. Com a Igreja inteira, peço ao Senhor que envie muitos trabalhadores prontos para ceifarem a messe de almas, que vejo já madura e abundante (cf. Mt 9, 37-38). Recordo, neste momento, o que escrevi na Encíclica Redemptoris missio: «Deus abre à Igreja os horizontes duma humanidade mais preparada para a sementeira evangélica».34 Esta perspectiva de novos e promissores horizontes, vejo-a desenhando-se na Ásia, onde Jesus nasceu e o cristianismo começou.