A g n u s D e i

O JUBILEU E AS BEM-AVENTURANÇAS
Autores: Pedro Lima Vasconcellos e Rafael Rodrigues da Silva
Enviado por: Antonio Xisto Arruda

A realidade da Galiléia no tempo de Jesus é de extremo enfraquecimento das organizações clânico-tribais, que já não conseguiam mais defender os interesses da coletividade. As famílias estavam cada vez mais obrigadas a seguir as regras ditadas pelo sistema político-econômico dos romanos. A grande quebra das leis clânicas de defesa do povo (sobretudo dos empobrecidos) aparece principalmente nos casos de exclusão dos doentes e dos endividados (por causa das pragas, das más colheitas e do processo de roubo das terras). A vida ficou ameaçada e as famílias empobrecidas totalmente desprotegidas.

Nas parábolas de Jesus podemos vislumbrar esta situação de enfraquecimento da vida, da organização e das leis em defesa do povo. Especialmente nas parábolas esta situação pode ser percebida em toda sua dramaticidade: exploração do trabalho camponês, endividamento, desemprego, etc. É a partir desta situação que Jesus age, e logo é percebido na esteira da tradição do ano jubilar; por sua ação é proclamado este "ano da graça" como boa-notícia para os pobres e oprimidos (Lc 4), como vimos no texto da semana passada. As suas propostas vamos encontrar em vários ditos espalhados pelos evangelhos. Destacamos dois ditos de grande importância para a caminhada das comunidades: o discurso de Bem-aventuranças (Mt 5,3-12 e Lc 6,20-26) e a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13 e Lc 11, 2-4). Vamos nesta nossa reflexão nos ater aos discursos de Bem-aventuranças.

São muitos textos na Bíblia que se apresentam em forma de bem-aventuranças. E bem-aventurança é vista como felicidade; bem-aventurado seria sinônimo de feliz. Mas como pobres, aflitos podem ser declarados felizes? Pessoas perseguidas, mesmo que por causa da justiça, devem se sentir felizes? Ou felicidade é seguir os valores estabelecidos pela sociedade: dinheiro, poder, fama? Antes de mais nada devemos ter claro que com uma bem-aventurança não se quer dizer apenas que alguém ou um grupo de pessoas é feliz. Ela tem a finalidade de convocar aquela pessoa ou o grupo para que continue agindo da maneira exposta pelo texto, ao mesmo tempo que provoca as outras pessoas para que passem a seguir o mesmo caminho (como podemos observar, por exemplo, no Salmo 1). As bem-aventuranças do evangelho da comunidade de Mateus são uma convocação aos pobres, a quem tem fome e sede de justiça, aos aflitos, a quem luta pela paz, para agir, na certeza de que assim é que se constrói o reino! Já as bem-aventuranças do evangelho da comunidade de Lucas apresentam um quadro duplo e coerente em suas partes: quatro bem-aventuranças são seguidas de quatro maldições diretamente correspondentes. A comunidade de Lucas procura realçar o contraste com as maldições. O contraste entre bem-aventuranças e maldições demonstra os contrastes sociais e as tensões que a comunidade estava vivendo. É muito forte na comunidade a distância entre ricos e pobres.

Os ensinamentos de Jesus em forma de bem-aventurança foram escutados, acolhidos por tanta gente e foram passados adiante. E assim foram ganhando vida. Não eram repetidos, mas recontados, atualizados. E assim em cada lugar as bem-aventuranças iam adquirindo formatos novos, iam expressando desafios e esperanças diferenciadas, tendo em vista a experiência que cada comunidade ou grupo ia fazendo da boa-nova de Jesus. Portanto, numa leitura atenta podemos perceber que as bem-aventuranças estão muito bem organizada pelas comunidades. Cada qual apresenta a sua leitura de acordo com os problemas que estava enfrentando.

Se no evangelho segundo Lucas encontramos quatro bem-aventuranças seguidas de quatro ais, naquele segundo Mateus temos oito bem-aventuranças (v.3-10) que seguem um esquema comum: "bem-aventurados... porque...". E depois há outra, bem mais extensa (v.11-12), que se constrói de outra maneira, mas parece se dirigir às mesmas pessoas que aparecem no v.10. Este fala aos "perseguidos por causa da justiça"; a última bem-aventurança é dirigida a quando "forem insultados e perseguidos...". A primeira bem-aventurança e a última fazem uma mesma afirmação aos "pobres no Espírito" e aos "perseguidos por causa da justiça": deles é o reino dos céus. O horizonte e a expectativa pelo reino são o início e o fim da série. No meio teremos então a indicação dos caminhos e desafios concretos que o reino coloca. Notemos que cada conjunto de quatro bem-aventuranças tem como ponto de chegada a justiça do reino; são felizes as pessoas que têm a justiça como anseio e como valor mais importante: "bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça"; "bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça".

Mas há uma diferença entre estas duas bem-aventuranças. Enquanto a primeira fala da justiça como algo a ser buscado, algo que não se tem mas se luta por alcançar (as pessoas têm "fome e sede de justiça"), a outra fala de sofrimento por causa da justiça já praticada ("perseguidos por causa da justiça"). Então teríamos um quadro muito significativo: as três primeiras bem-aventuranças se referem a situações onde a justiça não existe (a realidade dos pobres, dos mansos que não têm terra, dos aflitos) mas se luta por ela com todas as forças: a síntese deste esforço é expressa pela quarta bem-aventurança ("bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça"). Já a segunda parte indica maneiras de se praticar a justiça (misericórdia, pureza no coração, luta pela paz), que trazem perseguição ("bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça").

A luta pela justiça em todas as suas situações e a construção do Reino trazem sofrimento e dor. No entanto, tanto a comunidade de Mateus quanto a comunidade de Lucas querem apontar para as suas comunidades que não se pode desanimar, não pode entregar os pontos, ficar firme, na certeza de que assim está cumprindo a vontade de Deus (Mt 5,11-12)!

Declarar felizes os pobres, os mansos, os aflitos, os perseguidos, os que tem fome e sede de justiça é uma afronta ao poder político, econômico, social e religioso. Estas declarações de Jesus apresentam um caminho a ser trilhado. Apontam para as leis em defesa dos pobres que não estavam sendo cumpridas. Há muito tempo as leis do resgate do pobre, do ano sabático e do ano jubilar foram esquecidas. O projeto de Jesus apresentado nas bem-aventuranças e assumido diferente e criativamente pelas comunidades quer realçar e apontar um caminho para que a justiça aconteça e elas não tenham medo de ser felizes...


Pedro Lima Vasconcellos: Doutorando em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração; e-mail: abelha@cidadanet.org.br

Rafael Rodrigues da Silva: Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP; e-mail: rafaeli@cidadanet.org.br